Os versos que vêm da dança

Posted on 14/10/2016

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Nova montagem da Cia de Dança Palácio das Artes é inspirada no universo poético de Manoel de Barros

Metáforas e lirismo são o mote de Nuvens de Barros /Paulo Lacerda/divulgação

Metáforas e lirismo são o mote de Nuvens de Barros /Paulo Lacerda

Em uma das passagens de “Gramática expositiva do chão: poesia quase toda”, Manoel de Barros afirma que escreve com o corpo, e que a poesia não é para compreender, mas para ser incorporada. Assim também é a dança, em especial, Nuvens de Barro, novo trabalho da Cia de Dança Palácio das Artes. Livremente inspirada na obra completa do Poeta do Pantanal, e com direção de Fernando Martins e Joaquim Elias, a coreografia mergulha no lirismo e nas metáforas de Manoel de Barros para descobrir, inventar e reinventar a delicadeza, a simplicidade e o realismo fantástico, sempre presentes nos versos de um dos maiores representantes do período pós-moderno da literatura brasileira.

A montagem, que estreou na quinta-feira (13), fica em cartaz no Teatro João Ceschiatti até domingo (16) e é fruto de um trabalho coletivo de pesquisa que durou cerca de dois meses. Durante esse período, o trabalho foi sendo moldado a partir de um diálogo pouco casual entre a dança contemporânea e a poesia repleta de metáforas de Manoel de Barros. Desse processo, surgiu uma coreografia inventiva e inventada, e o grupo se permite ser permeado por um universo lírico em que coisas se humanizam e pessoas se coisificam. A partir daí, os movimentos coreográficos passaram a refletir o imaginário poético da obra.

Espetáculo é uma criação coletiva dos bailarinos da Cia de Dança Palácio das Artes/Paulo Lacerda

Espetáculo é uma criação coletiva dos bailarinos da Cia de Dança Palácio das Artes/Paulo Lacerda

Divido em dois elencos com nove bailarinos para apresentações intercaladas, o coletivo passa a ocupar outros corpos, criando algo híbrido, mutável. Ora transformam-se em peixes dançarinos, ora em pedras que se tornam pássaros; que se tornam homens. Elementos cênicos como maçãs e plantas ganham vida e se transformam em novos objetos – ou corpos–, que também interagem com os bailarinos. O próprio nome da montagem faz alusão às metáforas de Manoel de Barros, ao unir dois elementos que já possuem um significado explícito e criar um terceiro, quase irreal ou inimaginável. A nuvem transmite a leveza, o lado delicado do trabalho. Já o barro é a parte mais pesada, mais palpável.

O cenário, o figurino, a iluminação e a trilha sonora do espetáculo também seguem o caminho mutável e metafórico de Manoel de Barros. As roupas do elenco são uma mistura do simplório dos povos camponeses com a silhueta de peças mais urbanas. As cores tons de terra e musgo se confundem com a leveza e a transparência dos tecidos. Já o cenário do espetáculo é construído a partir de um olhar mais voltado para texturas que lembram cascas de árvores e pedras. Enquanto a iluminação cênica remete tanto aos raios de sol quanto às sombras. O trabalho é assinado pelo diretor de arte Rai Bento.

A trilha sonora mescla composições instrumentais, de autoria do músico Rodrigo Salvador, a trabalhos de outros artistas, como Tom Zé, que foram selecionadas por Fernando Martins. A proposta de Rodrigo é criar um ambiente sonoro que combine o peso dos instrumentos de percussão, como o tambor, com a leveza da viola caipira, da kalimba e da rabeca, para dar a sensação de que algo pesado e, ao mesmo tempo, sutil, recai sobre os bailarinos no desenrolar da coreografia.

Direção compartilhada – Os convidados para conduzir a montagem de Nuvens de Barros compartilham de diferentes experiências no universo literário de Manoel de Barros. Joaquim Elias é um profundo conhecedor do trabalho do poeta. Já Fernando Martins, diretor coreográfico do espetáculo, nunca havia unido a dança e a poesia em seus trabalhos. A escolha de diretores com perfis tão distintos se deu por uma necessidade de trabalhar a nova coreografia a partir de um olhar mais amplo, reunindo o acabamento físico da dança a elementos típicos da narrativa teatral.

Corpos ocupam novos corpos e criam algo híbrido, mutável/Paulo Lacerda

Corpos ocupam novos corpos e criam algo híbrido, mutável/Paulo Lacerda

Para encontrar o caminho da montagem coreográfica, os diretores, que nunca haviam trabalhado juntos, desenvolveram diferentes técnicas com os bailarinos. Joaquim Elias iniciou as atividades com a preparação corporal e cênica do grupo. Por meio das leituras constantes, cada bailarino identificou elementos na obra de Manoel Barros que pudessem inspirar um movimento. “Eles conseguiram entender toda a coisificação presente nesse universo ‘manoelino’ e, a partir daí, começamos a criar os movimentos, sempre inspirados nessa questão da coisa como realidade, na coisa como um outro corpo a ser ocupado”, disse.

Já Fernando Martins aplicou no grupo uma técnica denominada Brain Diving, mergulho cerebral, em livre tradução, que consiste em conectar corpo e mente e transformar essa conexão em movimento. O grupo passou, então, a pensar como dar fisicalidade e realismo aos elementos identificados anteriormente nas oficinas com Joaquim. “A intenção não é ilustrar a obra de Manoel de Barros. A intenção é despertar essa conexão nos bailarinos e ajudá-los a criar os movimentos a partir da imagem que vem à cabeça. O Brain Diving foi essencial nesse processo, pois ele é uma técnica para que as pessoas reconheçam seu próprio código de movimento”, finalizou.

SERVIÇO
Nuvens de Barro – Cia de Dança Palácio das Artes
Quando: sexta-feira (14), às 20h; sábado (15) e domingo, (16), com apresentações às 18h e às 20h
Local: Teatro João Ceschiatti – Palácio das Artes
Endereço: Av. Afonso Pena, 1537 – Centro
Ingressos: R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia)
Informações: (31) 3236-7400 | www.fcs.mg.gov.br

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Posted in: Arte, Cultura