Exposição inédita resgata a trajetória de Farnese de Andrade

Posted on 22/04/2016

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“Arqueologia Existencial” reúne mais de 90 obras do artista mineiro no Palácio das Artes

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Obras revelam trajetória conturbada do artista /Vítor Cruz

Sexo, religião e loucura. Instâncias tão comuns ao homem e, ao mesmo tempo, tão distantes uma da outra, se transformaram em unidade nas mãos do mineiro Farnese de Andrade. Com um trabalho que beira o grotesco, o artista surpreendeu o público ao problematizar questões intrínsecas à natureza humana e mergulhou no universo das assemblages, misturando os mais variados objetos para se libertar dos medos, anseios e questionamentos. Esquecido nos últimos anos, o trabalho de Farnese pode ser conferido até 3 de julho em exposição inédita na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, no Palácio das Artes.

“Farnese de Andrade – Arqueologia Existencial” reúne 95 trabalhos do artista que nasceu em 1926, em Araguari, no Triângulo Mineiro. A exposição é composta, em sua maioria, por objetos e esculturas que traduzem em linguagem altamente biográfica, a relação do artista com o sexo, as religiões e a repulsa notória que sentia por crianças. Os traços da personalidade polêmica e de difícil convivência estão presentes em cada uma das obras, ora carregadas de memórias afetivas da infância no interior de Minas; ora revelando o período mais transgressor da carreira, quando se mudou para o Rio de Janeiro na década de 1950.

Logo na entrada da Grande Galeria, o visitante se depara com uma celebração ao sexo. A Sala do Coito reúne esculturas em madeira que remetem à vagina e à fecundação da gamela. As lembranças da infância e a dificuldade que o artista tinha em lidar com crianças têm um tom sombrio, com a utilização de bonecos corroídos pelo mar, inseridos em formas que lembram ovos e cobertos por resina. Farnese é considerado o pioneiro no uso desse material na arte brasileira. Oratórios nada convencionais ao invés de abrigarem santos, comportam cabeças de bonecas, retratos de desconhecidos e outros materiais que o artista coletava em depósitos.

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Obras revelam trajetória conturbada do artista /Vítor Cruz

A curadoria da exposição é assinada pelo carioca Marcus Lontra, que já levou esse trabalho para São e Brasília, em escala reduzida. Na capital mineira, o trabalho de Farnese chega com 30 obras a mais, além de dois vídeos e o filme “Farnese”, de Olívio Tavares de Araújo, com o qual o diretor-roteirista levou o prêmio de melhor curta-metragem do Festival de Cinema de Brasília, em 1971. Segundo o curador, o resgate da obra e da história de Farnese de Andrade é uma forma de não permitir que o artista caísse no ostracismo. “Todo mundo vai se identificar com a produção de Farnese. Apesar de abstrata, é fácil entender a exposição”, disse.

Ex-aluno da escola de Alberto da Veiga Guignard, que funcionava no Parque Municipal de Belo Horizonte, Farnese de Andrade teve contato com nomes consagrados da arte mineira. Amilcar de Castro, Mary Vieira e Mário Siléso foram alguns dos colegas de classe. Além de assemblages, seu trabalho também é composto por pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e ilustrações.

Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1948, para se tratar de uma tuberculose. Ao trocar as montanhas e a introspecção do povo mineiro pelo amplo horizonte do oceano, o artista mergulhou em uma nova vertente do seu trabalho e, a partir daí, se tornou referência para o trabalho de outros artistas, como Tunga, Leonilson, Ângelo Venosa e Adriana Varejão. Farnese de Andrade morreu em 1996, na capital fluminense.

A exposição “Farnese de Andrade – Arqueologia Existencial” pode ser visitada até 3 de julho, na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, no Palácio das Artes. O espaço fica aberto de terça a sábado, das 9h30 às 21h; e aos domingos, das 16 às 20h. A entrada é gratuita. Outras informações pelo telefone (31) 3236-7400 e no site do Palácio das Artes.

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Posted in: Arte, Cultura