A Dama da música

Posted on 16/07/2015

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Após quarto anos, Cida Moreira volta a Belo Horizonte com o show A Dama Indigna

Cida Moreira volta aos palcos de BH no show 'A Dama Indigna' / Gal Opido

Cida Moreira volta aos palcos de BH no show ‘A Dama Indigna’ / Gal Opido Divulgação

Lirismo, dramaticidade e performances teatrais fazem de Cida Moreira um dos grandes nomes da música nacional. Desde 1977, quando começou a se aventurar pelos palcos, a cantora tem transitado por diversos estilos. A partir de então, foram 11 discos gravados e um DVD lançado, todos eles repletos de interpretações memoráveis de composições de Gonzaguinha a Bob Dylan. Na próxima segunda-feira, 20 de julho, ela leva à sala Juvenal Dias, no Palácio das Artes, o show A Dama Indigna, apresentação intimista de voz e piano, que tem um repertório tão variado quanto a própria carreira de Cida. Há canções de Chico Buarque, Jards Macalé e Caetano Veloso, passando por trabalhos internacionais de Tom Waits e Amy Winehouse.

Maria Aparecida Guimarães Campiolo ou, Cida Moreira, é paulistana e começou na música ainda menina. Aos seis anos, se apresentou pela primeira vez em um programa de auditório da Rádio Marconi, em Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo. A canção escolhida foi “Serra da Boa Esperança”, do carnavalesco Lamartine Babo. Já adolescente, mudou-se para Londrina, no Paraná, onde estudou piano. Após alguns anos, retornou à capital paulista e concluiu o curso de psicologia. “Em São Paulo, fiquei sem piano por quatro anos, mas sempre me envolvi com muitas atividades culturais na universidade. Foi nesse período que comecei a participar de peças e musicais do teatro universitário.” De lá para o teatro profissional, foi um pulo.

No ano de 1977, protagonizou A Farsa da Noiva Bombardeada, uma adaptação de O Casamento do Pequeno Burguês, do alemão Bertolt Brecht. Quatro anos mais tarde, foi a vez de subir aos palcos com o espetáculo Summertime, sob direção de José Possi Neto. O musical fez tanto sucesso que acabou virando o disco de estreia de Cida como cantora. Naquele mesmo ano, uma gravação do show no Teatro Lira Paulistana, culminou no lançamento do álbum Summertime, com claras referências à cantora norte-americana Janis Joplin.

A alma inquieta de Cida ganhava, a partir daquele momento, mais uma plateia, e a voz de trovão da cantora iria dar outro sentido às músicas de artistas de várias gerações. “Aquilo (a gravação de Summertime) me colocou no eixo. Eu sabia que queria virar cantora, porque tinha entendido o meu papel na música. A música é a minha vida, mesmo que tenha que cantar o trabalho de pessoas diferentes”, diz Cida que, desde a estreia como cantora, já gravou 11 discos. O último trabalho, A Dama Indigna (2011), também virou DVD – o primeiro da carreira – e não foge ao estilo: dramático e intenso.

A Dama Indigna é o show que, por sinal, marca o retorno de Cida à Sala Juvenal Dias, no Palácio das Artes, dentro da programação do primeiro Inverno das Artes, evento produzido pela Fundação Clóvis Salgado para movimentar o inverno de Belo Horizonte com música, artes visuais e cinema. Um poema escrito pelo amigo Marcelo Fonseca, há dez anos, inspirou Cida enquanto ela montava o repertório para o último álbum de estúdio. Decidiu, então, batizar o novo trabalho com o mesmo título dos versos do poema. “Tudo tem a ver comigo. Esse ‘presente’ do Marcelo me descreve como artista. Sobre o poema, e o próprio disco como um todo, eu sempre digo que essa dama que está no palco só é indigna quando exerce, sem qualquer tipo de pudor, sua arte”.

Com formato intimista, o show reproduz o ambiente de cabaré / Agnaldo Rocha Divulgação

Com formato intimista, o show reproduz o ambiente de cabaré / Agnaldo Rocha Divulgação

O repertório tem um apanhado de grandes nomes da música brasileira, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Jards Macalé e outras canções que, por motivos que a própria Cida desconhece, não puderam ser gravadas. O formato intimista, com voz e piano, que faz as vezes de coadjuvante em alguns momentos, dá um ar de cabaré à apresentação. “Já parou para pensar que em um cabaré tudo é intimista e intenso, inclusive, eu?”. Mas a intensidade de Cida é outra história. Indigna, como gosta de ser, acabou criando uma personagem que sobe aos palcos para fazer sentido, na junção da música e do teatro.

“É a minha natureza, eu sou atriz, eu tenho uma personalidade teatral. A Cida Moreira é uma pessoa, a Maria Aparecida é outra. Foi assim que eu me encontrei. Então, eu sou essa pessoa que exerce a sua natureza de duas formas complementares. A personagem da vida real alimenta a minha artista, e a minha artista me alimenta, me completa, me faz ir além”, divaga a cantora, que completa 35 anos de carreira em 2015.

Durante estas três décadas e meia, Cida tem transitado entre o blues, o jazz, com visitas ao roque e à MPB. Ela gosta de misturar, de experimentar, de fazer sua arte mais digna. “Eu vasculho tudo, escuto de tudo, o tempo todo. A música, para mim, tem que ter poesia na letra. Depois que eu encontro a poesia, vou pensar na melodia para gravar”. Desse garimpo, surgem gratas parcerias. A mais recente foi com o cantor paulista Thiago Pethit. Em 2011 os dois fizeram várias apresentações pelo país, celebrando a música de cabaré. No ano seguinte, Pethit gravou um álbum de estúdio com a participação de Cida na faixa Surubaya Johnny.

Há, também, as apresentações internacionais. Cida já esteve na França, na Alemanha, em Portugal. O último destino foi a Argentina, onde interpretou um vasto repertório brasileiro e canções típicas do folclore Porteño. “Tem público para tudo, gente. Tem música boa em todos os lugares. E tem quem queira ouvir“, define.

Aos 60 anos de idade, dois casamentos, uma filha e inúmeras histórias para contar e cantar, Cida não guarda arrependimentos. “Fiz quase tudo o que eu queria fazer”. Ela é uma das poucas artistas no país que se manteve à arte não baixou a cabeça diante das mudanças e exigências da indústria fonográfica. “Tudo mudou, menos a minha teimosia em ser artista brasileira. Mesmo perdendo espaço, continuo insistindo, continuo cantando”. Mas ainda há fôlego para a dama indigna, que já está em processo de finalização do próximo álbum: Soledade, com previsão de lançamento para outubro deste ano.

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Posted in: Cultura, Música