Cláudio Dias dirige espetáculo de conclusão de semestre do Cefart

Posted on 30/06/2015

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Peça é inspirada em romance de escritor angolano e se confunde com a vida do próprio ator

Cláudio Dias / Paulo Lacerda/FCS

Cláudio Dias / Paulo Lacerda/FCS

Reconhecido na cena cultural de Belo Horizonte pela excelência, o Curso Profissionalizante de Teatro do Centro de Formação Artística e Tecnológica – Cefart, da Fundação Clóvis Salgado, já revelou grandes nomes e coletivos das artes cênicas. Um deles é o ator Cláudio Dias, membro-fundador da Cia Luna Lunera, e que, após 15 anos volta, à FCS, não para se apresentar com um novo espetáculo, mas para dirigir a montagem de conclusão de semestre dos alunos do 3º ano de teatro: “a máquina de fazer espanhóis”, adaptada do romance homônimo do escritor angolano Valter Hugo Mãe.

O primeiro semestre dos alunos do Curso Profissionalizante de Teatro do Cefar será um momento de descobertas. Pouco familiarizados com o texto do escritor angolano, a turma tem um longo trabalho, até a estreia do espetáculo, em julho, para perceber as sutilezas de uma narrativa que lembra o trabalho de José Saramago. Lançado em 2010, o livro fez grande sucesso em Portugal e conta a história de António Jorge da Silva, um barbeiro de 84 anos que, após perder a mulher, passa a viver num asilo. Além disso, o romance de Valter Hugo se confunde, em alguns aspectos, com a própria trajetória do diretor do espetáculo, Cláudio Dias.

Tudo começou durante o curso de teatro que Cláudio fez no Cefar. O ano era 1998 e, àquela altura, ele estava descobrindo as técnicas de encenação, improvisação e tantas outras que fazem parte do universo dos atores. Em meados de 2000, a turma montava sua primeira peça: Fuleirices em Fuleiró, uma itinerância nas praças e ruas da capital, com direção de Marcos Vogel. A realidade crua de Nelson Rodrigues maturou bastante naquele grupo que, para a formatura, escolheu Perdoa-me Por me Traíres, também dirigida por Vogel, e que foi grande sucesso de público e crítica.

A partir daí, os contornos da Cia Luna Lunera, que completa 15 anos em 2016, começavam a ser desenhados por Cláudio e seu colega de turma Odilon Esteves, também artista reconhecido no cenário internacional. Desde então, foram vários espetáculos produzidos pela Cia, além de uma série de prêmios, individuais, inclusive. Com toda essa bagagem acumulada, Cláudio volta ao local onde tudo começou, para se reencontrar – e se reinventar – ao dirigir a montagem de conclusão de semestre dos estudantes que embarcaram no mesmo sonho que ele.

“O retorno é muito gratificante e de uma responsabilidade enorme. Hoje, eu chego sabendo o que é esse lugar, e é algo interessante, poder construir uma história ao lado desses alunos, assim como eu construí a minha, há 15 anos”, destaca Cláudio, que no ano passado recebeu do CEFART para ser professor de interpretação. Ao trabalhar com a turma os próprios alunos acharam interessante ter Cláudio como diretor de uma das montagens do final do ano. Além de compartilhar as experiências que ajudaram a construir a trajetória dele nas artes cênicas, o ator tem a chance de trocar figurinhas com colegas de palco com os artistas Walmir José, Lúcia Ferreira e Marcelo Bones, professores de Cláudio, em um passado recente.

O texto do espetáculo foi trabalhado pelos alunos do curso durante cerca de dois meses. Apesar da pouca afinidade, os alunos se encantaram com a narrativa, que foi escolhida de uma maneira diferente. Para chegar a uma decisão, foram apresentados dois materiais: o de Valter Hugo e “A Festa da Insignificância”, do tcheco Milan Kundera, esse último sugerido pelos próprios estudantes e que Cláudio desconhecia. O processo de escolha se deu por meio de “ensaios afetivos”, uma forma de trabalhar as narrativas a partir de um olhar mais voltado para o afeto. “Serve para que o material conquiste o outro, para que a minha ideia não seja só dita, mas executada enquanto material artístico”, explica. A técnica, que procurou despertar o interesse da turma pelo trabalho de Valter Hugo, foi aprendida com o professor Marcos Vogel.

a máquina de fazer espanhóis encerra o 1º semestre dos alunos de teatro / Paulo Lacerda/FCS

a máquina de fazer espanhóis encerra o 1º semestre dos alunos de teatro / Paulo Lacerda/FCS

A identificação de Cláudio com o texto de Valter Hugo vai além das páginas livro. “Começa com a gente – ele e Valter- ter a mesma idade. Somos contemporâneos de pensamento. Ele perdeu o pai por conta de um câncer, e eu perdi o meu há cerca de um ano. A diferença é que o Valter Hugo é brilhante, eu não sou”, brinca o diretor. O livro – assim como a peça – também narra os momentos de quem já viveu muito e que agora se encontra em um asilo, para aproveitar a feliz idade. Outra situação que tocou fundo em Cláudio, já que a mãe dele também está em uma casa para idosos.

Executar essa ideia como material artístico vai ser um dos principais desafios, como aponta o diretor. Na obra de Valter Hugo, todas as personagens possuem mais de 60 anos. Na turma de Cláudio, a média de idade não chega aos 30. “Como captar a essência de pessoas mais velhas? Como se enxergar no lugar do outro, mesmo que as experiências do grupo ainda sejam poucas?”, divaga Cláudio, que garante que todas essas dúvidas podem ser respondidas, entre 2 e 19 de julho, no Teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes.

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Posted in: Arte, Cultura, Teatro