Diferentes histórias contadas por uma mesma arte

Posted on 15/04/2015

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Fotografia ganha destaque na abertura da Temporada 2015 de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado

 

Assis Horta registrou diversos trabalhadores em Diamantina / Divulgação

Assis Horta registrou diversos trabalhadores em Diamantina / Divulgação

Durante as décadas de 1930 a 1960, em um pequeno estúdio fotográfico na histórica cidade de Diamantina, o mineiro Assis Horta registrou um sem número de pessoas. Grande parte daquelas fotografias tinham o propósito de preencher as Carteiras de Trabalho, determinação que entrou em vigor a partir de 1943, com a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), sancionada pelo então presidente da república, Getúlio Vargas. Muitas décadas mais tarde, outro fotógrafo, também se entregou à arte de imortalizar momentos através de suas lentes. Ao contrário de Assis Horta, Daniel Moreira se dedicou a fotografar paisagens, mais precisamente, o trecho de 200 km na BR 381 que liga Belo Horizonte a Ipatinga, no Vale do Aço.

O resultado desses trabalhos distintos são as exposições “Assis Horta – Retratos” e “Paisagem Ambulante 381”, na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, no Palácio das Artes, e no CâmeraSete – antigo Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, respectivamente, até 7 de junho, com entrada gratuita. Para inaugurar a Temporada 2015 de Artes Visuais, a Fundação Clóvis Salgado selecionou trabalhos que evidenciam a evolução da arte da fotografia e oferece a seus visitantes diferentes interpretações artísticas, a partir do olhar de fotógrafos que se contrapõem pelo tempo.

A exposição de Assis Horta, por exemplo, leva um recorte com 200 retratos feitos pelo fotógrafo entre os anos de 1930 e 1950 à Grande Galeria do Palácio das Artes. Os cliques de Assis contam a história de rostos sem nome, mas que refletem as transformações sociais e econômicas pelas quais o país passava durante o governo Vargas. Àquela altura, a fotografia ainda era um privilégio para poucos. Com a consolidação dá CLT, o registro fotográfico obrigatório democratizou o acesso à fotografia. Os quadros da exposição reproduzem as imagens em formato 3×4 da época, todas capturadas pela câmera-sanfona de Horta. É possível ver, inclusive, as placas com indicação da data em que a foto foi tirada – uma exigência daquele período.

Exposição reúne rico acervo com cerca de 200 fotografias / Paulo Lacerda/FCS

Exposição reúne rico acervo com cerca de 200 fotografias / Paulo Lacerda/FCS

Há, também, fotos de família e casamentos. Segundo Assis Horta, após o registro oficial para a carteira, alguns trabalhadores voltavam ao estúdio dele, para registrar outros momentos. Houve casos em que ele precisou emprestar as próprias roupas para que a foto fosse igual ao do padrão francês do século XIX. Outras composições com paisagens de Diamantina e uma seção dedicada aos materiais utilizados pelo fotógrafo em seu estúdio completam a mostra.O público também pode voltar no tempo ao visitar a exposição. Uma instalação reproduz o estúdio original de Horta, em Diamantina. Esse espaço interativo foi pensado para que os visitantes façam fotografias no local a plaquinha e o giz branco também estão lá, para datar as fotos que serão feitas pelos visitantes.

Alguns quarteirões distante do Palácio das Artes, o CâmeraSete – antigo Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, está localizado próximo ao cruzamento de duas importantes avenidas da cidade: Amazonas e Afonso Pena. Ali, o espaço recebe a exposição “Paisagem Ambulante 381”, primeiro trabalho de grande porte do fotógrafo belo-horizontino Daniel Moreira. Assim como o frenesi diário que compõe e modifica o cenário urbano da região, o trabalho de Daniel foi baseado em alterações na paisagem da BR 381, que liga Belo Horizonte a Ipatinga.

Visitas constantes à esposa e aos filhos, que residem em Ipatinga, inspiraram o fotógrafo, quatro anos atrás, a começar o registro dos 200 km que o separam da família. Desde então, o curto trajeto entre as duas cidades aumentou, tudo graças ao olhar observador de Daniel. “Nós não percebemos, mas a estrada tem vida própria. Ela é como um fluxo sanguíneo, que perpassa e molda pessoas e objetos que transitam por ela”, disse. Desse fluxo, Daniel selecionou 34 imagens em preto e branco para montar a mostra fotográfica.

Trabalho de Daniel Moreira revela cenários distintos na BR 381 / Divulgação

Trabalho de Daniel Moreira revela cenários distintos na BR 381 / Divulgação

Paisagem Ambulante 381 pode ser entendida como uma narrativa cronológica das alterações feitas naquela rodovia. A escolha de registrar exatamente essas modificações, além de dar um novo significado ao trabalho do fotógrafo, foi um desafio para ele, já que a BR 381 é conhecida como a Rodovia da Morte, devido ao grande número de acidentes que são registrados naquela estrada.

Os dois trabalhos, distintos em suas composições mas unidos pela arte da fotografia, inauguram a Temporada 2015 de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado. As duas mostras já foram vistas por mais de 9 mil pessoas desde a abertura. O acervo de Assis Horta chegou à Grande Galeria devido a uma parceria realizada com a Secretaria de Estado de Cultura. Segundo o secretário Angelo Oswaldo, promover a exposição do acervo de Assis Horta, no Palácio das Artes, é uma forma de garantir que o público conheça a sua própria história por meio de importantes registros. “Em cada retrato da série exposta, há o olhar estético de um fotógrafo admirável. Essa exposição enaltece o artista de Diamantina, a importância da fotografia e o patrimônio cultural do povo de Minas Gerais”, apontou.

Já o frescor do olhar de Daniel Moreira contou pontos para que ele fosse selecionado para expor no CâmeraSete, como explica a gerente de Artes Visuais da FCS, Uiara Azevedo. Segundo Uiara, a diretriz de 2015 é investir e apoiar trabalhos que dialoguem, cada vez mais, com a arte contemporânea. “Nossa proposta é fomentar a produção de jovens artistas e difundir novos trabalhos fotográficos, criando uma nova identidade para o CâmeraSete”, disse.

Paisagem Ambulante - 381 / Daniel Moreira

Paisagem Ambulante – 381 / Daniel Moreira

Outras linguagens – A fotografia não é o único pilar da temporada de artes visuais na Fundação Clóvis Salgado. Estão em exibição nas demais galerias do Palácio, desde 17 de abril, os trabalhos de três artistas selecionados pelo Edital de Ocupação dos Espaços do Palácio das Artes 2015. As mineiras Adriana Maciel e Nydia Negromonte e o fluminense André Griffo foram selecionados entre mais de 200 projetos inscritos de todo o país. As exposições, que já foram vistas por cerca de 4 mil pessoas, podem ser visitadas até 7 de junho, com entrada gratuita.

Em sua oitava edição, o Edital é uma iniciativa para fomentar a produção de arte contemporânea em todo o Brasil. Segundo o presidente da FCS, Augusto Nunes-Filho, os trabalhos selecionados para este ano se destacam pelo ineditismo e a capacidade reflexiva que podem estimular nos visitantes. “O Edital estimula tanto a inovação da linguagem artística quanto a reflexão crítica sobre o processo criativo nas artes visuais. Ao conhecer diferentes propostas artísticas, o visitante se surpreende, se interroga, se transforma”, frisou.

Na galeria Arlinda Corrêa Lima, por exemplo, Adriana Maciel propõe um paradoxo ao utilizar o espaço em branco da tela para remeter à ideia de vazio e lapso na construção das imagens. Intitulada Com-partimentos, a exposição da mineira dialoga com o espaço em branco e com as inúmeras possibilidades da criação artística. “Através dessa relação entre o silêncio e o vazio, faço um convite ao espectador para que ele construa o seu próprio universo dentro da tela e tenha experiências subjetivas e individuais”, explicou Adriana.

Barreiras geográficas e o poder transformador do tempo são o mote da exposição Ocidente, de Nydia Negromonte. O acervo na galeria Genesco Murta reúne fotos com intervenções em fotografias, peças fundidas em bronze e uma série fotográfica registrando a reação de vegetais envoltos em argila. O trabalho de Nydia também contempla táticas de orientação e desorientação no espaço. A ideia de Ocidente é trabalhar a ambiguidade da vida, ao “registrar a mudança do estado de falência se contrapondo ao renascimento, demonstrando a potência da vida”, definiu a artista.

Chumbadores - André Griffo / Divulgação

Chumbadores – André Griffo / Divulgação

Arte como resultado final –“Durante dois anos, ocupei uma oficina/depósito de equipamentos dentro de uma propriedade rural buscando estabelecer uma linguagem artística própria. Para isso, busquei ressignificar diferentes materiais, e dar outra funcionalidade para eles”, disse André Griffo, único dos três artistas selecionados que não é graduado em artes. Foi a curiosidade que levou o arquiteto para o universo da arte, em 2009. O resultado dessa mudança na vida de André é a exposição Intervenções Pendentes em Estruturas Mistas, no Espaço Mari’Stella Tristão, primeiro trabalho a ser exposto em Belo Horizonte.

A mostra estabelece um diálogo entre a pintura e o desenho na criação de diferentes instalações. Nesse contexto, a pintura e o desenho têm papel importante no trabalho de André. Em alguns casos, o artista percebeu que a execução do projeto não seria tão interessante se saísse do papel. Ele passou a expor, então, apenas o método desse processo de descoberta. Outra vertente é o estudo de elementos e espaços arquitetônicos. Pinturas e desenhos criam uma narrativa diferente, tendo, como ponto de partida, lembranças pessoais, paisagens e lugares que ainda estão na memória de André.

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