Misses contra o preconceito

Posted on 30/09/2012

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Garotas de programa se reuniram para participar de concurso que levanta a bandeira do respeito e regulamentação da atividade.

A poucos quarteirões de uma das mais tradicionais ruas da boemia de Belo Horizonte e, também, local de trabalho delas, os hoteis da rua Guaicurus, cerca de 30 prostitutas da capital, entre 18 e 50 anos, mostraram o que têm de mais atraente: a coragem. No último sábado, 29, foi realizado o primeiro Miss Prostituta do país. Iniciativa da Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Aspromig), o concurso agitou os três andares do Uai Shopping, região central da cidade, com o intuito de levar ao público uma nova forma de se enxergar as garotas de programa, sem preconceitos e com mais dignidade e respeito.

“Não vamos eleger a mais bonita, a mais simpática ou a mais sexy. A proposta do Miss Prostituta é conscientizar a população de que nós exercemos um trabalho como outro qualquer e merecemos ser respeitadas”, explicou a presidente da Aspromig, Maria Aparecida Vieira, a Cida. Segundo Cida, o concurso faz parte do ‘Dia Nacional sem Preconceito’, que conta com a apoio da Associação e de outras entidades para corroborar com a luta das mais de 80 mil prostitutas que trabalham em Belo Horizonte, segundo dados da própria Aspromig. Embora não seja mais considerada crime no Brasil, a prostituição, que é uma das profissões mais antigas do mundo, briga pela regulamentação da atividade.

Lotado, o Uai Shopping aguardou o início do desfile. Enquanto alguns se mostravam bastante animados com as moças, outros, apenas avaliavam com o olhar. “É algo que não se vê todo dia, mas acho que elas merecem. Hoje, tem todo tipo de concurso, elas também precisavam de um”, disse o segurança Marcos Cunha, acompanhado da esposa. A professora Elisângela Ferreira aprovou a iniciativa, mas, acima de tudo, a coragem das candidatas. “Eu nunca tive nada contra quem segue esse caminho. Agora, vou passar a respeitar ainda mais. Tem que ter muita coragem para chegar até aqui e desfilar para esse tanto de gente. É muita exposição”, apontou.

A vencedora do concurso, Mara, de 25 anos.

A grande vencedora da noite foi Mara*. Cobrando 10 reais por cinco minutos de programa, a jovem, de 25 anos, se disse surpresa com a primeira colocação. “Eu não esperava ganhar. Estava um pouco tímida na hora do desfile, mas foi muito bom ter vencido”, disse. Com o prêmio de 3 mil reais, ela pretende sair do mercado e investir em outra profissão. “Vou fazer alguns cursos e tentar arrumar um trabalho diferente. Já que me deram essa oportunidade, eu não vou deixar passar”, apontou. Além do prêmio em dinheiro, Mara também será estrela da campanha de fim de ano do Uai Shopping.

Para quebrar tabus

Não só a campeã do concurso encontrou no Miss Prostituta uma forma de vencer o preconceito. Rúbia*,24, decidiu participar do evento para driblar a própria vergonha. “É muito preconceito, as pessoas ainda torcem o nariz para a gente”, Entre os que conhecem a profissão da jovem, estava a mãe que acompanhou o desfile da filha. A garota, que saiu de uma cidade do Vale do Rio Doce, está há dois anos na profissão. “Com o dinheiro que ganhei até hoje, consegui pagar um curso de enfermagem e outras coisas”.

Quem se animou com a proposta foi Makely*, 19. A garota ficou sabendo do concurso por meio da uma assistente do centro de saúde do bairro onde mora e foi uma das primeiras a se inscrever. “A gente tem que se sentir bonita uma vez ou outra”, brincou. Para ela, a proposta do Miss Prostituta é uma maneira de ajudar as profissionais do sexo a se impor na sociedade. “Todo mundo sabe que nós (prostitutas) estamos por aí, mas as meninas precisam aprender a se dar ao respeito e assumir o que fazem”, argumentou.

Além do Miss Prostituta, o Uai Shopping foi palco de uma extensa programação ao longo de todo o sábado. A primeira edição do Dia Nacional sem Preconceito, proposto pela Fundação Doimo, reuniu palestras para o público LGBT, desfiles de modelos negros, apresentações indígenas, de congado e circenses. A proposta da data é valorizar a vida e promover a inclusão social, como explica o presidente da Fundação, Elias Terginele. “Não há paz se houver preconceito. Eu acredito muito nisso. Nosso objetivo, ao criar o ‘Dia Nacional sem Preconceito’, foi dar voz a todas essas parcelas da sociedade que precisam mostrar seu valor, sua cara. É muito gratificante olhar o resultado de tudo isso e saber que, aos poucos, a gente tem colaborado para um mundo mais tolerante”, finalizou.

*Nomes de profissão

Fotos: Willian Junior

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