Abandono de animais: um problema que cresce a cada dia

Posted on 15/02/2012

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Feiras de adoção são uma alternativa para dar um novo lar aos animais abandonados.

Embora a Constituição Brasileira garanta a todo cidadão o direito de ter um animal de estimação, encontrar cães e gatos vagando pelas ruas tem sido uma constante nas capitais. O abandono, que causa revolta e comoção em muitos, é considerado crime de acordo com a Lei Federal 9.605/98, e, quem o praticar, pode pagar multa e ser preso por três meses a um ano. No caso de morte do animal, a pena pode ser estendida de um sexto a um terço. A responsabilidade em manter um bicho dentro de casa e os custos que são demandados muitas vezes assustam os criadores deixá-los em qualquer esquina. Em Belo Horizonte, a situação não é diferente. Dados da Secretária Municipal de Saúde (SMSA) revelam que há cerca de 288,7 mil cães e 38,7 mil gatos na cidade. Destes, estima-se que 10% estejam nas ruas.

Proibida de sacrificar esses animais, a prefeitura adotou uma política que custa R$ 5 milhões por ano, mas não resolve o problema. Os animais são recolhidos e examinados. Os contaminados por leishmaniose vão para o sacrifício; os sadios recebem vacina contra a raiva e um chip com informações sobre sua saúde. Depois, são devolvidos para as ruas. Apesar do alto investimento, a PBH adotou uma política que não resolve a situação dos animais abandonados na cidade. Para a gerente do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) da região norte de Belo Horizonte, Maria do Carmo Ramos, todos os animais recolhidos recebem os devidos cuidados e, após 15 dias, são devolvidos às ruas caso os donos não venham reclamar a posse do bicho ou ninguém apareça para adotá-lo. “A rua não é o local mais adequado, mas o trabalho feito pelo CCZ tem sua importância uma vez que todos os animais recebem vacina e são castrados”. Maria do Carmo acredita que essa situação somente será resolvida quando todos, cidadãos e poder público, entenderem que são responsáveis pelos animais abandonados.  “É preciso que a população se envolva mais nesse processo e não somente os órgãos públicos tomem partido da causa”, destaca.

Controle populacional

Para Franklin Oliveira, as ações da PBH são importantes para o controle populacional dos animais de rua.

O ativista Franklin Oliveira acredita que a ação promovida pela PBH não é de toda ineficiente. Há 30 anos defendendo os direitos dos animais, Franklin é fundador do Núcleo Fauna de Defesa Animal, que realiza feiras de adoções na capital, além de desenvolver um trabalho de recolhimento de animais abandonados ou vítimas de maus tratos. Para ele, a castração e exames feitos pela PBH representam um controle tanto da saúde, quanto da população de animais nas ruas. “A castração é uma forma de interromper o problema da reprodução sem assistência. É um método humanitário para controle populacional. A ONU já reconhece esse tipo de ação como totalmente segura”,explica. Em relação ao abandono, o ativista acredita ser um problema de responsabilidade de todos. Para ele, a ideia de voltar com os bichos para as ruas é melhor do que o método empregado antigamente. “Antes os bichos eram mortos em câmaras de gás. Hoje, eles voltam para as ruas, mas só depois de receberem cuidados. É uma política que, de certo modo, não resolve a questão do abandono, mas já demonstra que o abandono de animais não cabe somente à Prefeitura”.

Feiras de adoção e sensibilização

O trabalho de Franklin já é reconhecido em toda a cidade e o ativista é referência quando o assunto é a preocupação com o bem estar dos animais. Mesmo não possuindo uma sede para recolher todos os bichos, Franklin mantém em sua casa, e também em casas de voluntários e parceiros, 50 animais. À medida que os recolhe, são encaminhados para clínicas veterinárias, recebem vacinas e, em seguida, são enviados para adoção. A última ação feita pelo ativista foi uma feira de adoção realizada no mês de abril e que contou com a participação de alunos do colégio Santo Agostinho, de Contagem. A professora de língua portuguesa do Colégio Santo Agostinho, Rejane Duarte, afirma que o trabalho feito em parceira com Franklin Oliveira permitiu que os alunos participantes do projeto (8º e 9º anos do Ensino Fundamental) compreendessem a realidade dos animais abandonados e compartilhassem a ideia da adoção. “Uma vez sensibilizados, eles serão os mensageiros de uma nova concepção sobre o respeito que se deve ter com os animais. Para os alunos que estiveram na feira, a realidade dos animais maltratados deixou de ser uma história contada e se transformou em realidade”, aponta.

"Há também os casos das pessoas que querem se livrar do cão ou gato quando ele está velho e doente”, Carla Magnani.

Exemplos de amor incondicional

Na batalhe entre os donos que abandonam seus companheiros e o poder público que não encontra uma solução para a questão da população de bichos na cidade, existem aqueles que, mesmo com poucos recursos, ainda encontram maneiras de ajudar os animais. Um exemplo é a Ong ‘Bicho Mais que Feliz’ que trabalha com acolhimento, castração e doação de animais de pequeno porte. A entidade foi fundada pela gerente pedagógica Simone Andere que decidiu declarar seu amor incondicional aos bichos de forma mais ativa. Sem qualquer tipo de ajuda financeira, e com 36 animais na sede, a presidente da ONG promove alguns eventos para arrecadar fundos e tentar pagar algumas dívidas. Uma das formas encontradas foi a venda de cartões com fotos de filhotes e mensagens de impacto. Segundo Simone, esta ação rotineira vai muito além da perspectiva do lucro. “Nosso objetivo com essas vendas não é ganhar dinheiro, mas despertar a emoção das pessoas que os compram. São fotos de filhotes de cadelas que já estão no nosso canil. As pessoas lêem, gostam e acabam comprando alguns cartões. Às vezes até nos procuram para adotar”, diz. Outro caso parecido é o da ONG SOS Bichos, que trabalha com o sistema de “Casa de Passagem”.Os cães e gatos resgatados das ruas são encaminhados para lares temporários – até encontrarem um local definitivo, depois que receberem os cuidados necessários para a adoção (vacina, castração, vermífugo). Segundo a Relações Públicas da ONG, Carla Magnani, vários são os motivos que levam as pessoas a entregarem animais para adoção. “Normalmente, porque o animal cresceu demais, faz bagunça ou late muito. Há também os casos das pessoas que querem se livrar do cão ou gato quando ele está velho e doente”, lamenta.

Casos de amor incondicional aos animais não faltam. A dona de casa Cecília do Rosário decidiu adotar Banjo, um vira-lata de oito meses. “Eu e minha filha fomos a uma ONG e, chegando lá, vimos o Banjo. Foi amor à primeira vista”, brinca. Para Cecília, todos devem ter um animal de estimação. “O Banjo é alegria da casa”. Já a pedagoga Thelma de Abreu decidiu adotar mais um cachorro para fazer companhia às outras duas cadelas que tem em casa. Segundo ela, ‘Nikita’ e ‘Milla’ já estão bem velhas. Após conversar com um Veterinário, a pedagoga decidiu levar a filhote Marina para casa. “Agora a Nikita e a Milla ficam o tempo todo atrás da Marina, brincam o dia inteiro. Eu percebi que elas estão mais animadas e ativas”, disse. Para Thelma, além de ter encontrado uma companhia para suas cadelas, a adoção de um animal é um gesto de carinho com o próprio ser humano. “Para mim, a adoção de animais deveria ser muito mais estimulada. Você tira um bicho da rua, seja para fazer companhia para seus outros animais de estimação ou mesmo para companhia própria. Ajudar os bichos é ajudar as próprias pessoas”, concluiu.

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Posted in: Mundo Animal