“Hora de Clarice” debate o lado jornalista de Clarice Lispector

Posted on 10/12/2011

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Lúcia Castelo Branco (dir.) e Aparecida Nunes (esq.).

Dez de dezembro marca o nascimento de uma das mais célebres escritoras do país, Clarice Lispector (1920-1977). Se ainda estivesse viva, a autora de “Laços de família” e “A hora da estrela” completaria 91 anos. Para comemorar esta data simbólica para a literatura nacional, o Instituto Moreira Salles organizou a primeira edição do “Hora de Clarice”, um evento que ocorre em várias capitais e conta com uma programação variada. São palestras, debates, leituras e saraus sobre a obra de Lispector. Em Belo Horizonte, a pesquisadora Aparecida Nunes esteve na Livraria Mineiriana, Savassi, no último sábado (10), para um bate papo com o tema “Clarice Jornalista”.

Autora do livro Clarice Lispector Jornalista e organizadora das coletâneas “Correio feminino” e “Só para mulheres”, Aparecida tem grande conhecimento do trabalho de Clarice Lispector como cronista, colunista e repórter de vários jornais impressos. Desde a década de 1940 até os anos 1980, Clarice foi entrevistadora, repórter e cronista em diversas revistas e jornais brasileiros. Além disso, manteve colunas femininas utilizando pseudônimos para discorrer sobre beleza, moda e comportamento. Segundo Aparecida, “Clarice foi uma das primeiras mulheres a se aventurar no mundo jornalístico, mas muitos não a reconheciam como profissional da área, apenas como Clarice”, explicou.

Embora tenha se formado em Direito, Clarice Lispector nunca advogou, sobrevivendo basicamente do jornalismo e trabalhos de tradução. Em 1940, quando ainda cursava a faculdade, ingressou no Departamento de Imprensa e Propaganda como redatora da Agência Nacional. Sua primeira reportagem, “Onde se ensinará a ser feliz”, foi publicada em 19 de janeiro de 1941, no Diário do Povo, de Campinas (SP), relatando a visita da primeira-dama da República, Darcy Vargas, a um orfanato feminino. No ano seguinte, ela começou a trabalhar como redatora de A Noite e obteve seu registro como jornalista, profissão que exerceu até dois meses antes de falecer.

O público pode conhecer detalhes sobre a carreira de Clarice como jornalista.

O bate-papo também contou com a presença da professora Lúcia Castelo Branco, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Durante a “Hora de Clarice”, o público também participou, ora debatendo as obras famosas da escritora, como “A legião estrangeira”, ora descobrindo detalhes sobre a carreira de Clarice como jornalista. A pedagoga Lêda Farias disse que o evento a ajudou a conhecer mais sobre a carreira de Lispector. “Adoro os livros dela, mas não conhecia muito sobre o trabalho como jornalista. Achei impressionante todas as ‘caras’ que ela tinha”, disse.

As “caras” citadas pela pedagoga foram temas bastante discutidos durante o evento. De acordo com a professora Aparecida Nunes, a escritora, durante o período em que trabalhou em jornais e revistas, tinha uma abordagem muito intimista em suas entrevistas e matérias, e o lado artístico sempre falava mais alto. “Ela não abria mão de algumas técnicas de escrita que os jornalistas sempre usam, mas, durante uma reportagem feita sobre a casa dos expostos, no Rio de Janeiro, se podia perceber claramente essa visão mais maternal, esse olhar ‘Clariciano’ no texto”, concluiu.

A força de Clarice no mundo virtual

Ainda não se sabe ao certo o motivo Clarice Lispector ter se tornado uma febre nas redes sociais. Uma explicação coerente seriam suas “pequenas epifanias” sobre amor, cotidiano e existência, principalmente em crônicas cujos fragmentos se encaixam aos poucos caracteres dos sites de relacionamento. No Facebook, por exemplo, uma das páginas não-oficiais de Clarice registra quase 80 mil “curtidas”. Ganha, com sobras, de figuras também populares como Caio Fernando Abreu (1948-1996), com cerca de 70 mil “likes”, e até Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), com 26 mil – ficando atrás apenas Machado de Assis (1839-1908), com quase 110 mil “curtidores”.