Praça de Encontro

Posted on 08/10/2011

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Um dos cartões postais da capital, a Praça Sete de Setembro é também local de encontro
para todas as tribos que circulam pela cidade.

Ponto de passagem para muitas pessoas que circulam pelo centro de Belo Horizonte, a praça Sete de Setembro, mais conhecida como Praça Sete, é um dos pontos de encontro da capital. Localizada entre as avenidas Afonso Pena e Amazonas, a praça reúne diversos grupos sociais, mas para quem apenas corta caminho pela região, diferenciar as tribos é uma tarefa mais difícil. Enquanto grande parte da população passa apressada pelo local, pessoas comuns – ou nem tão comuns assim – aproveitam o tempo livre para um jogo de damas ou uma simples conversa durante o almoço.

Dentre as várias tribos que compõem o visual da praça, os hippies podem ser considerados coringas. São odiados pelos comerciantes e policiais, mas fazem amizade com todos os seus clientes. Um desses hippies é André Monteiro, natural Taubaté, interior de São Paulo. Aos 23 anos, André está em Belo Horizonte há um ano e meio e trabalha como artesão há sete. Hoje mora em Santa Luzia e o artesanato é sua única fonte de renda.

Para o artesão, o movimento da Praça Sete é o melhor de toda a capital e as pessoas que ali circulam são educadas e sempre “compram uma coisinha para agradar”, relata. A polícia é o maior problema para ele, que afirma: “os policiais chegam sem avisar e levam toda a nossa mercadoria. Se a gente não ficar esperto, perde um dia todo de trabalho e o dinheiro que está no bolso também”. Quando o assunto é dinheiro, André revela que consegue lucrar, em média, R$ 500,00 mensais. Apesar de não ter um ponto fixo na capital, o artesão gosta de expor seu trabalho na praça porque a região é mais movimentada e lucrativa.

Um dos cartões postais da cidade, a praça Sete de Setembro reúne as mais variadas tribos.

Shuellen Ribeiro é outra hippie que saiu de São Paulo e reside em Belo Horizonte. Aos 21 anos, está há um mês e meio na cidade, “de passagem”, como afirma. Além de ter concluído o ensino médio, é massoterapeuta. Contudo, diz que sua intenção é mostrar sua arte e, enquanto vende suas bijuterias, conta para seus clientes de onde vem seu talento. A artesã diz que se inspira nas técnicas gregas “macronê” e “vestonê” para compor o seu trabalho, o que tem sido, de acordo com Shuellen, sua única fonte de renda há três anos.

Outro grupo presente na praça é formado por comerciantes. Embora dividam o dia-a-dia com hippies, sua convivência não é tão harmoniosa. Elaine Moreira, 22 anos, gerente do restaurante Pop & Kid há dois anos e meio, se sente incomodada com a presença de hippies e moradores de rua na porta do seu trabalho todos os dias. “Eles não fazem bagunça e nunca tentam roubar nada, mas deixam a entrada do restaurante suja toda manhã” conta Elaine.

As brigas entre os próprios hippies atrapalham o movimento do estabelecimento. De acordo com o segurança Paulo Henrique Carvalho, muitos clientes já saíram do restaurante por medo de que a briga se estendesse. “Chamamos a polícia, mas não adianta. Eles chegam aqui e não fazem nada. Ficam conversando e nós temos que dar conta de todo o trabalho duro.” Paulo diz que ameaça atirar em vários hippies por atrapalharem a entrada do restaurante pela manhã, mas entende que eles, embora “fiquem sentados o dia todo” como destaca.

Os idosos também se reúnem todos os dias na praça para um simples bate papo após o almoço ou um descontraído jogo de damas ou gamão, prática que famosa em todo o Brasil, e que já foi tema de reportagens na imprensa. É na praça que os jornalistas recolhem depoimentos para manchetes diárias, radialistas entrevistam o público ao vivo, pastores pregam o fim do mundo e vários jovens ficam Na frente do PSIU à procura de quem precisa de novas fotos para documentos.
Antônio Carlos de Oliveira, mais conhecido como Seu Nilo, é um dos personagens mais antigos da praça. Aos 82 anos, mora na capital desde os 23.

Após o almoço, vai encontrar seus companheiros de jogo e só volta para casa depois da novela. “Gosto de ficar jogando dama com meus amigos. Ás vezes perco a noção do tempo e chego tarde” afirma Seu Nilo, que completa: “A praça é um dos melhores lugares em toda a cidade. Nunca vi tantas pessoas diferentes reunidas em um único ambiente.”

Nos postos de vigilância, a Polícia Militar é responsável pela ordem. O cabo Marcelo Dantas não gosta da diversidade de públicos. Para ele, o risco de haver um conflito quando pessoas diferentes dividem o mesmo espaço é bem maior. Embora haja certa preocupação por parte do cabo, ele mesmo revela que o trabalho de vigilância na região é tranqüilo. “Raramente temos algum problema com as pessoas que ficam aqui, principalmente em relação a drogas” conta Dantas que, até hoje, só precisou separar uma briga entre torcedores que voltavam do Mineirão.

O horário das 12h às 14h é um dos mais movimentados. “O pessoal aproveita para fazer a cesta quando termina de comer” comenta Thiago Henrique, 19 anos, técnico em informática, enquanto toma um sorvete sentado no chão da praça. “Quando era mais novo costumava ficar aqui quase todos os dias andando de skate com minha galera. Depois que comecei a trabalhar, só passo aqui no meu almoço.” Thiago diz acreditar que a praça perdeu a imagem de cartão postal da cidade para se tornar só mais um ponto de encontro para as pessoas.

Doze de Outubro a Sete de Setembro: muita história para contar

Praça Sete, em 1930.

Projetada no final do século XIX, a Praça Sete de Setembro é o marco zero da capital. Originalmente, se chamava Praça Doze de Outubro,homenagem ao dia 12 de outubro de 1492, data da chegada de Cristóvão Colombo chegou à América. Seu nome foi alterado para o atual em 1922, em comemoração ao centenário de independência do Brasil. O obelisco que está no cruzamento das avenidas Amazonas e Afonso Pena- Pirulito- projetado pelo arquiteto Antônio Rego e construído pelo engenheiro Antônio Gonçalves Gravatá só foi inaugurado em sete de setembro de 1924. No ano de 1932, a praça ganha um novo monumento, o Cine Brasil, construído entre Amazonas e Carijós. Em 1950 o edifico do Banco da Lavoura é inaugurado no cruzamento da rua Rio de Janeiro com Avenida Amazonas. O Banco Mineiro da Produção, projetado por Oscar Niemeyer em 1951 e inaugurado em 1953. Em 2003 a prefeitura cria um programa de revitalização que torna a praça mais acessível para deficientes físicos e, em 2006, é tomada pelo Museu Abílio Barreto como acervo operacional da instituição após uma reforma de suas vias para o encontro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

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Posted in: Cidades